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sexta-feira, 11 de março de 2011

Alienação parental

Autor: Elizandra Souza

Termo pouco conhecido até entre psicólogos, professores e advogados, vem merecendo destaque por causa de sua prática bastante comum. Alguns especialistas utilizam também o termo síndrome para falar da alienação parental, pois consideram que o conjunto de sintomas que surgem nesta prática é patológico. Apesar de não ser um fenômeno novo, hoje desperta maior atenção, principalmente pelo grande número de divórcios e ampliação das questões relacionadas a guarda dos filhos.

Segundo Richard Gardner, norte-americano, que, em 1985 nomeou o sintoma, a síndrome de alienação parental existe quando após a separação, um dos genitores influencie a criança a não gostar mais do outro genitor. Em casos mais graves há até sugestão de abusos sexuais e violência física. O genitor alienador faz com que a criança diga sobre coisas que não sofreu, mas que foi induzida a acreditar que era verdade. O que acontece é uma programação para que o filho se afaste do genitor alienado e volte-se totalmente para o genitor alienador. O filho é usado como forma de agredir o antigo parceiro.

Os discursos alienantes podem acontecer de forma sutil ou explosiva, mas são sempre insistente, assertivos e repetidos. Desta maneira, o trabalho de advogados, médicos, psicanalistas e psicólogos é dificultado, pois gera dúvida em relação ao genitor que sofre as acusações, sem conseguir saber, de imediato, ele realmente causa mal ao filho ou se o filho sofre alienação.

Apesar de, na maioria das vezes, a síndrome de alienação parental ocorrer entre ex-cônjuges, ela também pode se apresentar com relação a avós e pais (ou outros parentes). Isto, pelo fato de envolver disputa judicial ou mesmo, somente, disputa do amor da criança (ou do adolescente). Um quer ser mais amado pela criança e quer que o outro se afaste, pois tem medo de perder o amor e a atenção da criança.

O alienador leva a criança a acreditar que o outro não é uma boa pessoa, que fez ou faz maldade, que o outro não gosta dela. Muitas vezes também, o alienador se coloca numa posição vitimizada, onde o ouro é culpado de toda a infelicidade que vive é causada pelo outro.

Aquele que sofre a alienação, independente da idade, se sente muito mal com esta situação e passa a ficar confuso, muitas vezes sem saber se as coisas que o alienador fala é verdade ou mentira ou se a situação em que está é realmente culpa do outro ou não.

O filho aos poucos se afasta do genitor alienado, em função daquilo que o alienador diz sobre o outro. Muitas vezes, o filho se sente mal em estar com o outro, pois sabe que este será desmoralizado. O genitor alienador faz com que os vínculos sejam destruídos. Em muitos casos se colocam na posição de vítimas e manipulam os filhos para acreditar que todas as coisas ruins que acontecem são culpa do genitor alienado.

Preso a contradições de sentimentos e discursos incisivos, os filhos sentem efetivamente a manipulação a acabam concordando com tudo o que é informado sobre o outro. Esta alienação vai desde dizer que o outro não gosta do filho ou que não desejava ter filhos até possíveis abusos sexuais.

Nem sempre o filho, que sofre esta alienação, consegue discernir sobre o verdadeiro e o falso, nem mesmo sobre a manipulação sofrida e, por isso, fica convencido do que foi dito e é levado a repetir como verdade absoluta.

Um exemplo disto é quando a mulher que está separada passa a dizer para o filho que o pai era ruim, que nunca gostou dos filhos, que só se preocupava com ele, que vai fazer todo mundo passar necessidade, que vai abandonar os filhos. Existem caos em que a criança ou adolescente se sente mal em sair com o outro genitor, quase não conversa e quando volta para casa diz que o passeio foi péssimo, mesmo que tenha sido bom.

A alienação parental pode ocorrer de ambos os lados. O que vai defini-la é a manipulação afetiva que um exerce sobre a criança ou adolescente com o intuito de influenciar negativamente sobre o outro. Enquanto síndrome, condiciona aquele que sofre a formar ações, sentimentos, pensamentos e comportamentos contra o outro (o alienado).

Alguns sintomas podem ser observados para pensar numa síndrome (chamada assim pelo número de sintomas que podem surgir, em geral sem ligação) de alienação parental: afastamento do genitor alienado com justificativas fracas; desculpas tolas para a não visitação ou passeios com o genitor alienado; dizer que a compania do genitor alienado não é boa ou que o passeio foi ruim, que fez por obrigação – isto só para não deixar que o genitor alienador se sinta mal ou inferiorizado; o filho apresenta falta de atenção nos estudos; demandam amor e atenção de forma desvirtuada (com coisas erradas); se recusam a seguir normas e regras; defendem a todo custo o genitor alienador, às vezes, sem saber por quê; os filhos sentem dó do genitor alienador; os filhos não sentem culpa quando existe abuso, agressividade ou injustiça com o outro genitor. Asim como apresentam timidez, porém com inquietação, medo, insegurança, um certo sentido de robotização (a criança parece não ser ela mesma).

A alienação parental pode acontecer em qualquer idade, pois as formas de manipulação ou doutrinação são diversas e atigem, principalmente, pelo apelo emocional. Infelizmente o alienador não consegue mensurar os danos psíquicos, emocionais e sociais que pode causar na criança ou no adolescente. E muitas vezes, está num conflito tão grande que não consegur perceber o que está fazendo ou dizendo e ataca o outro utilizando como arma somente o filho, acreditando que o amor da criança e o mal-estar do outro vai lhe trazer satisfação.

Elizandra R. Souza

Psicanalista

http://www.artigonal.com/psicoterapia-artigos/alienacao-parental-4315987.html

Perfil do Autor

Psicanalista, Professora de cursos de Formação em Psicanálise, Diretora da Comissão de Ética do SINPESP (Sindicato dos Psicanalistas do Estado de São Paulo), escreveu o livro "Apriximando-se da Psicanálise num jogo de perguntas e respostas".

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Casais em divórcios litigiosos se esquecem de ser pais

Estudo da UnB analisa a dinâmica de pais em divórcios destrutivos e como os filhos lidam com a separação

Juliana Braga Repórter da Secretaria de Comunicação da UnB


Pesquisa revela que casais com filhos e que se divorciam litigiosamente se esquecem das suas funções como pais. A dissertação de mestrado Papéis conjugais e parentais na situação de divórcio destrutivo com filhos pequenos, fruto da dissertação de mestrado em Psicologia de Mariana Juras, buscou entender a dinâmica dos pais nesse tipo de divórcio e como os filhos lidam com a situação.
Mariana explica que, como são as mesmas pessoas desempenhando papéis diferentes, o de cônjuge e o de pai, alguns casais podem ter dificuldade em diferenciar essas funções e comprometem o cuidado com os filhos. “Deveria terminar apenas a vida conjugal. O casal precisa continuar se comunicando em função das crianças”, diz. Em separações conflituosas, porém, os envolvidos tendem a priorizar as questões conjugais e chegam a usar os filhos para resolvê-las (veja quadro).
Mariana acompanhou o processo de separação litigiosa de três casais na Vara de Família do Tribunal de Justiça do DF. Realizou uma pesquisa qualitativa a partir de atendimentos no Serviço de Atendimento às Famílias em Processos Cíveis e entrevistas com os pais e filhos. Nesses casos, as crianças tinham entre quatro e onze anos.
FILHOS - As crianças são sensíveis ao conflito e manifestam isso em suas atividades diárias. “Pode se apresentar como um nervosismo, ansiedade ou como uma lealdade muito forte a um dos pais”, exemplifica Juras. Para lidar com a situação, desenvolvem mecanismos, que podem ser saudáveis ou não.
O mecanismo não saudável mais notado foi a parentalização. Como a função dos pais não é exercida adequadamente, a criança sente que precisa se colocar como adulto e tomar decisões. “Por mais que a criança aparente estar bem por conseguir desenvolver suas atividades, ela sofre porque não tem tempo de ser criança”, explica. Quando crescer essa criança tende a ser um profissional competente, uma pessoa que se preocupa com os outros, mas a ausência de uma infância saudável pode causar sofrimento.
Os comportamentos saudáveis identificados foram a mudança de foco e o fortalecimento na relação com os irmãos, quando existem. Uma das crianças analisadas na pesquisa, por exemplo, focou a vida no esporte para evitar lidar com o conflito e para conseguir reconhecimento pessoal. Dedicava-se tanto ao futebol que era um atleta campeão. Nas famílias que tinham mais de um filho, percebeu-se que os irmãos tornaram-se mais próximos, já que se encontram na mesma situação e buscam se ajudar.
DISPUTAS DE PODER - O divórcio é considerado destrutivo quando os cônjuges se agridem, se envolvem em disputas de poder e colocam outras pessoas para intermediar os conflitos. Esse contexto se estabelece quando um dos parceiros ou os dois não conseguem aceitar o fim da relação e, por meio das brigas, tentam manter o outro ainda em suas vida. Nesse tipo de separação é comum que não se reconheça a responsabilidade compartilhada no cuidado dos filhos. “Os pais focam sua atenção apenas na resolução dos problemas com o antigo cônjuge”, esclarece.
Segundo a pesquisadora, um sinal comum de que a separação é problemática acontece quando um dos pais presenteia as crianças com celulares. Dessa forma, falam diretamente com os filhos e passam para eles a responsabilidade de resolver problemas que deveriam ser solucionados entre os pais, como dia de visita. “As crianças não tem responsabilidade sobre essas questões”, afirma Mariana. Sem a intermediação dos pais, os filhos passam a manipulá-los para ganhar presentes ou visitarem um dos pais somente quando quiserem, por exemplo.
De acordo com o IBGE, o número de divórcios aumentou mais de 200% entre 1984 e 2007. Mariana afirma que é um erro acreditar que o aumento represente falência da estrutura familiar. “É sinal de que hoje a sociedade valoriza bons casamentos”, diz.
Diante desse cenário, a pesquisadora defende que é importante conseguir que os divórcios sejam saudáveis. “Mesmo em relações destrutivas, o psicólogo tem que identificar momentos de entendimento e tentar ampliá-los”, defende. Para que isso aconteça, a pesquisadora sugere que quando esses casos cheguem à Justiça, para formalizar a separação, o juiz recomende acompanhamento psicológico. Segundo ela, esses casais não costumam enxergar a importância de resolver seus conflitos e não tomam a iniciativa sozinhos.
JUSTIÇA E PSICOLOGIA - A professora Liana Costa, orientadora da dissertação, explica que a Justiça tem sido cada vez mais procurada para mediar conflitos familiares. E já percebeu a necessidade de interagir com a Psicologia. Reflexo disso é a expansão da Psicologia Jurídica, um dos referenciais teóricos da dissertação. “As decisões judiciais não podem ser mais um elemento de conflito. As duas áreas devem trabalhar juntas para amenizar o sofrimento dos filhos”, justifica.
Mariana Juras esclarece que o trabalho da Justiça e dos psicólogos deve mostrar ao casal que a família não está sendo destruída e sim que se está criando uma nova estrutura familiar. “O divórcio é uma forma de buscar a felicidade”, afirma.


Disponível em http://www.unb. br/noticias/ bcopauta/ index2.php? i=597 Acesso em 12 de fevereiro de 2010.